Tacrolimus a 0,03%: a experiência no tratamento de doenças da superfície ocular

Título: Tacrolimus a 0,03%: a experiência no tratamento de doenças da superfície ocular

Title: Tacrolimus 0.03%: the experience in surface treatment of eye

Autores: Luiza Assed de Souza1, Maria Lúcia David Almeida Gibelli1, Gabriel Almeida Veiga Jacob1, Pedro Martins Sccianni1, Érika Alessandra Galembeck Silvino Rodrigues3.

1) Residente de Oftalmologia do Hospital Ana Costa, Santos/SP, Brasil.

2) Assistente do Serviço de Oftalmologia do Hospital Ana Costa, Santos/SP, Brasil.

Instituição: Serviço de Oftalmologia do Hospital Ana Costa, Santos/SP, Brasil.

Correspondência: Rua Pedro Américo, 60 – 10º andar 11075-905 Santos/SP, Brasil.

E-mail: luizassed@hotmail.com

Conflito de interesse: nenhum. Fonte de fomento: nenhuma.

Resumo

Objetivo: Avaliar a eficácia do uso tópico de Tacrolimus pomada oftalmológica 0,03% em pacientes atendidos no Hospital Ana Costa, com diferentes patologias da superfície ocular, incluindo alergia ocular, olho seco, esclerite, ceratite filamentar e infiltrados subepiteliais por adenovírus. Métodos: Trata-se de estudo retrospectivo de uma série de casos incluindo pacientes tratados com Tacrolimus para alergia, olho seco, infiltrados subepiteliais, ceratite filamentar e esclerite, atendidos no Hospital Ana Costa em Santos, Brasil, entre setembro de 2014 e setembro de 2015. Em todos os pacientes, o tratamento foi iniciado com Tacrolimus 0,03%, duas vezes por dia, por ao menos três meses. O tratamento foi considerado bem sucedido quando houve melhora dos sinais e sintomas e mal sucedido se o paciente não podia tolerar o medicamento ou não respondeu com melhora do quadro clinico geral durante a sua utilização. Resultados: Dentre os 24 olhos avaliados, de um total de 14 pacientes, todos apresentaram melhora clínica significativa ao final do tratamento, com redução considerável da gravidade dos sintomas. Dos pacientes incluídos no estudo, três apresentaram efeitos adversos do medicamento. Conclusão: O uso tópico de Tacrolimus foi efetivo no controle das doenças inflamatórias e/ou imunológicas da superfície ocular, reduzindo o uso de corticosteroides tópicos.

Descritores: Tacrolimus. Olho Seco. Conjuntivite Alérgica.  Esclerite. Ceratite Filamentar.

Abstract

Objective: To evaluate the efficacy of topical Tacrolimus 0.03% ophthalmic ointment in patients treated at Hospital Ana Costa, with different pathologies of the ocular surface, including ocular allergy, dry eye, scleritis, filamentary keratitis and subepithelial infiltrates. Methods: This is a retrospective study of patients treated with Tacrolimus for allergy, dry eye, sub-epithelial infiltrates, filamentary keratitis and scleritis seen at Hospital Ana Costa in Santos, Brazil, between September, 2014 and September, 2015. In all patients, the treatment started with Tacrolimus 0.03% twice a day for at least 3 months. It was considered successful when there was improvement in signs and symptoms and unsuccessful if the patient could not tolerate the drug or did not respond with improvement of the general clinical during use. Results: Of the 24 eyes evaluated in a total of 14 patients, all showed significant clinical improvement after the treatment, with considerable reduction in the severity of symptoms. Of the patients included in the study, three showed adverse effects of the drug. Conclusion: The topical Tacrolimus was effective in controlling inflammatory ocular surface diseases and reduced the use of topical corticosteroids.

Key words: Tacrolimus. Dry Eye. Allergic Conjunctivitis. Scleritis. Keratitis Filamentary.

Introdução

Doenças alérgicas dos olhos compreendem um espectro de doenças caracterizadas por imunopatologia complexa, com ativação de mecanismos imunológicos e inflamatórios. O fenótipo clínico característico é resultado de suscetibilidade genética, fatores individuais, defeitos na barreira cutânea e resposta imunológica local e sistêmica1. A disfunção na ativação das células T com produção de citocinas representa papel central na patogênese da doença. As condições mais graves e crônicas, tais como ceratoconjuntivite primaveril e ceratoconjuntivite atópica, envolvem predominantemente mastócitos e eosinófilos, além de ser associada com uma preponderância de células T2. O tratamento com anti-histamínicos tópicos ou estabilizadores de mastócitos é, muitas vezes, insatisfatórios e a terapia depende de corticosteroides tópicos. Estes têm efeitos colaterais significativos com o uso a longo prazo; portanto, parecem ser mais apropriados para a terapia de pulso de curto prazo3. Agentes imunomoduladores também podem ser utilizados para inibir a ativação de células T e demonstram resultados encorajadores entre os pacientes com condições alérgicas severas4.

O presente estudo é uma tentativa de apresentar uma coerente imagem das recentes investigações da terapia tópica dos agentes imunomoduladores nas doenças alérgicas oculares graves, especialmente o Tacrolimus e os seus mecanismos de ação.               

 

Métodos

                    Trata-se de estudo retrospectivo de uma série de casos incluindo pacientes tratados com Tacrolimus pomada oftalmológica 0,03%,  para alergia, olho seco, infiltrados subepiteliais, ceratite filamentar e esclerite, atendidos no Hospital Ana Costa, Santos, entre setembro de 2014 e setembro de 2015.

                    Em todos os pacientes, o tratamento foi iniciado com Tacrolimus 0,03%, duas vezes por dia. O Tacrolimus foi mantido durante 12 semanas. O tratamento foi considerado bem sucedido quando houve melhora dos sinais e sintomas e mal sucedido se o paciente não podia tolerar o medicamento ou não respondeu com melhora do quadro clinico geral durante a sua utilização. Os pacientes aplicaram uma fina camada da pomada.

                    Os pacientes foram avaliados pelo mesmo médico no momento de inclusão no estudo (semana 0) , nas semanas 1, 3, 6, 10, 12 e 16 semanas (quatro semanas após interrupção do medicamento).

                    O grupo do estudo foi dividido em seis tipos de doenças imunológicas e/ou inflamatórias da superfície ocular. São elas: 1) conjuntivite alérgica; 2) dermatite atópica; 3) olho seco; 4) esclerite; 5) ceratite filamentar ; 6) infiltrados subepiteliais após episódio de conjuntivite viral.

Resultados

                   Dentre os 24 olhos avaliados, de um total de 14 pacientes, a média de idade foi de 40 anos (variando de 8 – 79 anos). Destes, cinco pessoas eram do gênero masculino (35,72%) e nove do feminino (64,28%). Das doenças avaliadas, 10 olhos apresentaram olho seco (41,68%); dois olhos com dermatite atópica ( 8,33%); sei olhos com conjuntivite alérgica (25%); dois olhos com esclerite (8,33%); dois olhos com ceratite filamentar (8,33%); e dois olhos com infiltrados subepiteliais após conjuntivite viral (8,33%). Entre estes, três olhos não toleraram a medicação por mais de quatro semanas (paciente com esclerite, conjuntivite alérgica e olho seco), devido aos sintomas oculares de hiperemia, queimação e irritação. Desse modo, nesses casos, após a quarta semana, o medicamento foi utilizado em dias alternados, melhorando a tolerância e o quadro clínico, sendo mantido nessa posologia até a décima segunda semana.

                    Os critérios de eficácia de melhora foram a clínica avaliada pelo médico, com redução do olho vermelho, prurido, sensação de corpo estranho e desconforto ocular. Os parâmetros avaliados pela biomicroscopia foram hiperemia conjuntival, quemose conjuntival, papilas, nódulos de Horner-Trantas, infiltrados subepiteliais corneanos e Break up time( BUT).

                    Dos casos de olho seco e ceratite filamentar, 100% apresentaram BUT menor que 10 segundos. Dos olhos com conjuntivite alérgica, todos apresentavam papilas em tarso superior, quatro olhos apresentaram quemose ( 66,66%), cinco olhos com hiperemia conjuntival (83,33%), três olhos com nódulos de Horner Trantas (50%).  O caso de dermatite atópica apresentou hiperemia conjuntival e papilas em tarso inferior; 100% dos casos de esclerite e infiltrados subepiteliais apresentaram hiperemia.

Em relação à terapia coadjuvante, todos os pacientes de olho seco já utilizavam previamente lubrificantes oculares. Um paciente com ceratite ocular havia realizado tratamento prévio com soro autólogo por 10 semanas em ambos os olhos. Todos os pacientes com conjuntivite alérgica, infiltrados subepiteliais e dermatite atópica iniciaram o tratamento já em uso de Acetato de Fluormetalona a 0,1%  de 6/6h.

                    Evidenciou-se que, após o início do tratamento com Tacrolimus, conseguiu-se regredir o uso do corticoide tópico. Após o período de uso, observamos melhora clínica dos sinais e sintomas e do exame oftalmológico.

 

Discussão

No presente estudo, o tratamento com Tacrolimus 0,03% pomada oftalmológica promoveu adequado controle antinflamatório das doenças imunológicas/inflamatórias da superfície ocular. Essa resposta pode ser atribuída ao potente efeito imunossupressor e anti inflamatório através da inibição da ativação das células T 5. O Tacrolimus (FK-506) é um macrolídeo neutro isolado a partir do caldo de fermentação de Streptomyces turubaensis. Essa substância tem atividade imunomoduladora e antinflamatória, conduzindo ao bloqueio da ativação da transcrição de citocinas, tais como a interleucina 2 (IL-2), o qual é crítico para ativação de células T6. O efeito imunossupressor do Tacrolimus é até 100 vezes mais forte do que a ciclosporina(CSA) e, em sua forma tópica, foi demonstrado ser eficaz e seguro no tratamento de doenças inflamatórias e doenças alérgicas dos olhos, tais como blefaroconjuntivite atópica, ceratoconjuntivite atópica, conjuntivite alérgica, ceratoconjuntivite vernal, conjuntivite papilar gigante, conjuntivite folicular,  uveoretinite auto-imune e olho seco7.

Muitos estudos têm utilizado Tacrolimus em diferentes concentrações para tratar condições imunoalergênicas e não foram documentados efeitos locais e sistêmicos importantes 8 . Irritação ocular e sensação de queimação, entretanto, tem sido comuns e, geralmente, bem toleradas. O mais frequente efeito adverso descrito foi irritação ocular9.

O Tacrolimus tópico apresenta um bom perfil de segurança, já que não ocasiona nenhuma das complicações tipicamente associadas ao uso de esteroides tópicos, como formação de catarata e glaucoma10.

As doenças da superfície ocular podem afetar significativamente a qualidade de vida, comprometendo as interações sociais e familiares. O controle da doença requer abordagem ampla, com medidas ambientais, comportamentais e farmacológicas, principalmente nos casos de dermatite atópica e conjuntivite alérgica11.

Conclusão

                Tacrolimus pomada 0,03% tem rápido início de ação e representa terapia tópica não esteroidal, segura e efetiva para o tratamento da doenças da superfície ocular, melhorando os sinais e sintomas nessa pequena amostra de pacientes. Demonstrou ser uma terapia efetiva a longo prazo, evitando a dependência prolongada de agentes esteroidais e, consequentemente, com menos efeitos adversos para os pacientes.

Referências

  • Gontijo B, Duarte IAG, Sittart JAS, Takaoka R, Pires MC, Cestari SCP, Cestari TF, Aun TA, Oliveira ZNP, Scala CSK . Avaliação da eficácia e segurança do tacrolimo pomada 0,03% no tratamento de dermatite atópica em pacientes pediatricos. Arq Bras Dermatol. 2008;83(6):1806.
  • Erdinest NSolomon A. Topical immunomodulators in the management of allergic eye diseases. Curr Opin Allergy Clin Immunol.2014;14(5):457-63.
  • Miyazaki D, Tominaga T, Kakimaru-Hasegawa A, Nagata Y, Hasegawa J, Inoue Y. Therapeutic effects of tacrolimus ointment for refractory ocular surface inflammatory diseases. Ophthalmology. 2008;115(6):988-92.
  • Kymionis GD, Kankariya VP, Kontadakis GA. Tacrolimus ointment 0.03% for treatment of refractory childhood phlyctenular keratoconjunctivitis. Cornea. 2012;31(8):950-2.
  • Tam PM, Young AL, Cheng LL, Lam PT. Topical 0.03% tacrolimus ointment in the management of ocular surface inflammation in chronic GVHD. Bone Marrow Transpl. 2010;45(5):957-8.
  • Levinger E, Slomovic A, Sansanayudh W, Bahar I, Slomovic AR. Topical treatment with 1% cyclosporine for subepithelial infiltrates secondary to adenoviral keratoconjunctivitis. Cornea. 2010;29:638-40.
  • Daniell M, Constantinou M, Vu HT, Taylor HR. Randomised controlled trial of topical ciclosporin A in steroid dependent allergic conjunctivitis. Br J Ophthalmol. 2006;90:461-4.
  • Ohashi Y, Ebihara N, Fujishima H, Fukushima A, Kumagai N, Nakagawa Y, Namba K, Okamoto S, Shoji J, Takamura E, Hayashi K. A randomized, placebo-controlled clinical trial of tacrolimus ophthalmic suspension 0.1% in severe allergic conjunctivitis. J Ocul Pharmacol Ther. 2010;26(2):165-74.
  • Zribi H, Descamps V, Hoang-Xuan T, Crickx B, Doan S. Dramatic improvement of atopic keratoconjunctivitis after topical treatment with tacrolimus ointment restricted to the eyelids. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2009;23(4):489-90.
  • Moscovici BK, Holzchun R, Chiacchio BB, Santo RM, Shimazaki J, Hida RY. Clinical treatment of dry eye using 0.03% tacrolimus eye drops. Cornea. 2012;31:945-9.
  • Dhaliwal JS, Mason BF, Kaufman SC. Long-term use of topical tacrolimus (FK506) in high-risk penetrating keratoplasty. Cornea. 2008;27(4):488-93.
Voltar

Saiba mais: